segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Já fui um presidiário.

Por anos desconfiei. Desconfiava...mas não tinha certeza. A arquitetura, aquela geometria quadrada unida aos olhares vindos daquela janelinha de cima que parecia tudo vigiar. A entrada obrigatória pelos fundos (na época a porta da frente era exclusividade de poucos), a sirene, o pátio. Sim, sempre tive a impressão que estava cumprindo pena num presídio de regime semi aberto. Salvo que ao invés de dormirmos no presídio, frequentávamos ele durante o dia. Não sei até hoje o que é pior. Porém todos diziam que eu estava na escola.
Sete horas quarenta e cinco minutos e lá estava eu, me apresentando com mais algumas centenas de outros detentos, quer dizer de alunos. De 45 em 45 minutos, nosso educador mudava de face, porém o semblante era sempre o mesmo.
"Silêncio" e "vocês são insuportáveis" eras as máximas da turma da carceragem. Quando não davam conta de todos, levavam os ditos "piores dos piores" à direção. Nos ameaçavam com o quartinho escuro, que nós comparávamos com aquelas solitárias que conhecíamos através dos filmes hollywoodianos.
Tentaram me enganar durante anos dizendo que aquilo era uma escola. Nunca engoli isso. O autoritarismo dos carcereiros, quer dizer dos professores, dizendo que nossa cela, quer dizer nossa sala era a pior, me fazia acreditar fielmente que éramos marginais vindos de famílias que não tinham nos dado uma boa educação. Nossa maior alegria eram as aulas de educação física, isso provavelmente porque ali tínhamos liberdade assistida. Ali podíamos descontar a raiva que tínhamos de estar ali, chutávamos o "couro de vaca costurado " que os "carcereiros mais legais" nos disponibilizavam, acreditando que fosse a cabeça de um carcereiro da matemática, do português ou daquelas aulas que não suportávamos. Enfim, merecíamos aquilo. Merecíamos ser reeducados.
Estar ali enfim era uma penúria. Não víamos a hora de soar o último sinal e ir para casa. Acho que com todos eram assim. Soava a última sirene e era aquela correria para fora do presídio, quer dizer, da escola. Fiquei anos cumprindo pena.
Saí de lá em 1996, e acho que a insistência foi tão grande em dizer que estava na escola que acreditei até semana passada que aquilo não era um presídio.
Isso provavelmente, porque de longe, quando diariamente estava para chegar e cumprir minha pena, via no horizonte alguns pinheiros que encobriam aquela fachada. Eles incoscientemente me despertavam a esperança. Semana passada cortaram os pinheiros e minha dúvida cessou. Realmente eram eles, que me faziam à distância, acreditar que estava na escola.
Agora tenho certeza...já fui um presidiário.

6 comentários:

Rodrigo disse...

realmente, os pinheiros nos iludiam... e iludiram milhares de internos durantes decadas!

mas mesmo tendo sido revelado este segredo, os internos ainda tem de pagar suas penas... e o sistema continua seu ciclo!

Alexsander de Vargas...o Ale. disse...

Aham...mas agora todos já sabem, estão num presídio..hehe.

Unknown disse...

Você é maluco mesmo! Adorei...

Unknown disse...

Estudos comprovam que a concentração máxima é atingida com a menor quantidade de abstrações exteriores que o objeto de concentração pode ter. Portanto, se vc estava "preso" e seu trabalho na prisão era estudar, ele fo preudicada por sua visão dos pinheiros.
A escola está lá pra poder fornecer ao mundo pessoas capazes de manter o sistema. Quem quer aprender somente o que não ensina o sistema, vira o circo de quem estuda no sistema. Vira artista. Artistas do pensar, artistas do fazer... artistas...
Nós, educados, apenas somos.
(lavagem cerebral concluída)
hauhauhahuauhauhuahhuahuauhahuahaha

Alexsander de Vargas...o Ale. disse...

Hhehehe...acho que temos que fundar uma escola de artes...

Anônimo disse...
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